É recorrente a utilização do sentimento de ciúme para justificar crimes como agressões verbais, físicas e até assassinato. Ver esse sentimento como algo que é passível de resultar em violência, porém, é um erro. Embora seja natural e, na medida certa, até inerente ao ser humano, o ciúme, quando excessivo, não é natural e pode indicar transtornos mentais que precisam de tratamento especializado.

Dois casos recentes de crimes dos quais a origem estaria no ciúme chamam atenção. A personal traine Andressa Serantoni, de 28 anos, que foi esfaqueada e morta em São José do Rio Preto (SP), após uma briga com um casal de vizinho. O motivo inicial da briga teria sido o ciúme da mulher em relação um suposto interesse do marido pela jovem. Em outro caso, a modelo Katiuscia Mota, de 31 anos, teria, segundo sua namorada, ateado fogo em si mesma após uma briga por ciúme. Em muitos casos de violência contra a mulher também o ciúme aparece como uma suposta motivação. 

A psiquiatra da clínica Holiste Fabiana Nery enfatiza que o comportamento abusivo pode ser causado por vários aspectos, inclusive sociais, mas aponta que existem quadros de transtornos mentais que podem levar a relações patológicas e que o ciúme também pode ser um indicativo de um transtorno.

“Ciúme não é essencialmente patológico: é um sentimento universal e normal, desencadeado pela ameaça à estabilidade de um relacionamento pelo qual se preza.  Entretanto, em um quadro de ciúme patológico existe um grande desejo de controlar o comportamento e sentimentos do ser amado. Ocorrem sentimentos exagerados e muitas vezes infundados de desconfiança”, diz Fabiana.

Ela destaca que, no ciúme patológico observa-se o desejo de controle absoluto sobre os comportamentos do/a companheiro/a, associado a diversos sentimentos perturbadores, desproporcionais e absurdos. Esses sentimentos envolvem um medo desproporcional de perder o ente amado, e uma desconfiança excessiva e infundada, gerando significativo prejuízo no relacionamento do casal. Nesses casos, as dúvidas se transformam em certezas e a pessoa é compelida à verificação compulsória de suas desconfianças.

A psiquiatra da Holiste Livia Castelo Branco salienta que, nos relacionamentos abusivos, na maioria das vezes, a pessoa agredida não percebe que está vivenciando uma relação perigosa e de que existe ali um quadro de dependência emocional envolvido.

“Muitas vezes essas pessoas são funcionais – trabalham, vivem em sociedade normalmente -, mas desenvolvem um quadro de ciúme patológico que se torna um delírio, e então em agressividade, podendo chegar ao assassinato. Também ocorre casos em que a pessoa tem um transtorno de personalidade em que não se tem remorso, então ela faz a outra sofrer e não sente culpa, pode sentir até mesmo prazer nisso”, pontua.

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