É de pequenos bastões de pigmento que Bruna Portugal, 29 anos, resgata a confiança de algumas mulheres. Elas chegam cabisbaixas, entre o medo e a expectativa, e começam os desabafos. O câncer de mama retirou de seus corpos a mama e, com ela, a autoestima. A fisioterapeuta e esteticista ouve, compartilha histórias e ajuda a construir um novo capítulo. Há dois anos, Bruna conhecia aqueles caminhos apenas por meio de conversas com o marido tatuador. Desde então, é ela quem cria e vive a renovação.

Onde não havia nada, uma lembrança de tratamentos muitas vezes traumatizantes, Bruna reconstrói tudo. Como fez nesta quarta-feira (24), numa sessão de atendimento gratuito para mulheres mastectomizadas, no Shopping Salvador Norte. Os mamilos retirados pela cirurgia de mastectomia são recolocados por Bruna num procedimento chamado pigmentação paramédica. Ali, ela reafirma um propósito: ajudar quem precisa.

As histórias de quem a procura são também sua própria história. Bruna perdeu o avô, aos 91 anos, e uma tia, para um câncer de mama. A doença, de alguma forma, sempre esteve presente no seu caminho. Na faculdade, finalizada há cinco anos, e nos três hospitais de Feira de Santana, no centro-norte da Bahia, também cercou-se de pacientes com trajetórias parecidas.

A tatuadora Bruna: casos de câncer de mama na família (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Do marido, conhecido como Coala, Bruna também conheceu muitas histórias. Por oito anos, foi ele quem trabalhou com a reconstrução de mamilos e aréolas de mulheres mastectomizadas.

De tanto ouvir aquelas histórias, e pela formação pessoal e profissional, foi à Espanha, em 2012, para um curso de pigmento. Voltou ao Brasil decidida. Comprou uma pele falsa e começou a treinar desenho de mamilos.

“Até em amigos muito tatuados que eu tenho, eu treinei alguns mamilos”, brinca ela.

O marido, então, parou de trabalhar com pigmentação paramédica. E Bruna, cada vez mais, começou a investir no trabalho.

O trabalho é dividido em fases e costuma durar até duas horas: primeiro, Bruna marca o tamanho do mamilo e testa as cores; depois, começa a micro pigmentação, conhecida como tatuagem em 3D. As cores são escolhidas ou com base no mamilo da outra mama ou do tecido da boca. “É um jogo de luz e sombra que faz as texturas, as profundidades”, explica. O procedimento, se fosse cobrado, custaria de R$ 700 a R$ 1 mil. Mas Bruna atende gratuitamente mulheres que perderem a mama para o câncer.

“Por que eu faço isso de graça? As pessoas precisam de ajuda. E eu quero ajudar. Eu não quero ser a pessoa mais rica do cemitério, isso não me ajuda em nada. Não ajuda ninguém”.

É o que a fez sair de Feira de Santana pela segunda vez no mês para atender antigo pacientes de câncer. No dia 11 de outubro, ela já havia atendido outras três mulheres. Lá, as únicas reeconstruções de mamilo e aréolas pagas são as de pessoas que a procuram após cirurgias plásticas.

Devolvendo a autoestima 
A primeira atendida do dia, às 10h, foi Lucimeire Cerqueira, 47 – no total, foram três. Enquanto Bruna comentava seu trabalho, a pedagoga dizia porque estava ali. E porque demorou tanto para decidir ir. Foi diagnosticada com câncer de mama em 2011, quando teve a mama esquerda completamente retirada. Sentiu-se sem um pedaço do que era, embora a mama tenha sido recolocada logo depois.

“A autoestima fica destruída. Mas eu tinha medo, medo de doer. Na verdade, eu nem conhecia direito. Fiquei sabendo que teria essa oportunidade hoje e resolvi vir”, conta, o sorriso já no rosto quando a tatuagem estava prestes a ser finalizada.

Mas, na verdade, não costuma doer, como temia Lucimeire e como temem grande parte das mulheres. “Antes do procedimento, a gente coloca um creme anestesiante. E muitas mulheres também tem perda da sensibilidade por causa da reconstrução mamária. É mais medo”, acredita Bruna. É tanto medo que, mesmo atendendo gratuitamente em projetos como o realizado nesta quarta (24) e no estúdio onde trabalha, em Feira de Santana, a média de procura é baixa: somente uma mulher por mês.

Para juntar forças, Lucimeire juntou-se a Cleidiane Santana, 39. As duas se conheceram na antessala do Hospital Lisieux, em 2011, enquanto esperavam as sessões de quimioterapia. Depois dos oito meses de tratamento, com perdas de outras colegas de tratamento, saíram amigas.

“Passávamos manhãs inteiras juntas. Dividíamos e dividimos as coisas. Foi ela quem me falou sobre essa tatuagem gratuita, nos damos forças”, falou Cleidiane, antes da tatuagem da micro pigmentação.

As duas sentiam que, em poucas horas, teriam de volta um pedaço de si e o começo de uma nova fase. Há um ano, foi a vez de Adriane Crespo, 43, se redescobrir e ter de volta sua parte perdida. Até então, após a mastectomia, em 2013, sentia-se mutilada como muitas outras mulheres. Conheceu Bruna por meio de uma outra fisioterapeuta e reinventou sua relação com o próprio corpo. “É encantador, é fantástico.  Eu me senti mais amada. Nós, que somos portadoras de câncer de mama nos sentimos mutiladas. Eu me senti mais mulher, mais eu”, falou.

Ao final das tatuagens, a recompensa de Bruna é o agradecimento das mulheres. Elas não conseguem parar de olhar o resultado no espelho. Apenas para agradecer Bruna. É o que faz Lucimeire, logo após as horas de ansiosa espera para a primeira e mais importante tatuagem da vida: “Eu não vou esquecer isso nunca, o quanto eu estou bonita. Podem até dizer que é vaidade, mas só sabe o que se sentir assim quem passou por tudo que passamos”.

O que é mastectomia?
Remoção parcial ou total da mama acometida pelo câncer.

O que é a pigmentação paramédica?
A técnica utiliza princípios básicos da tatuagem tradicional, com agulhas e pigmentos variados, mas para mudar alguma aparência ocasionada por um problema médico.

Quando fazer?
É indicado recorrer ao médico para saber o momento ideal de realizar o procedimento. Em todo caso, o tratamento já deve ter sido finalizado.

 

A Tarde

 

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