O processo de derrocada da Farmácia Sant’Ana, que já foi a maior rede de drogarias do estado da Bahia, ganha mais um capítulo nesta sexta-feira (6).  A empresa avisou aos funcionários na noite de quinta-feira (5) que 54 das 60 lojas que ainda estavam em funcionamento serão fechadas. Os funcionários foram orientados, inclusive, a entregar as chaves das lojas na matriz da empresa, no bairro da Pituba. Atualmente a rede é controlada pela Brasil Pharma e tem um débito de mais de R$ 1,2 bilhões.

A convocação veio pelo grupo de WhatsApp. “Já estava em casa, quando a minha gerente falou para eu comparecer na matriz. Gelei! Já  imaginava o que me esperava, mas vim na expectativa de não ser o que imaginava”, disse Ana Cristina Silva, 30 anos, que acabara de ser demitida de uma das lojas da Farmácia Santana. Cabisbaixa, ela foi um de muitos ex-funcionários que estiveram na manhã de hoje, na loja matriz da rede, na Avenida Manoel Dias da Silva. Ana Cristina  trabalhava como caixa e lamentava, junto com outros colegas, o fechamento das lojas que ainda restavam em Salvador.

“Estou arrasada. Não tenho outra fonte de renda e crio sozinha minha filha”, lamentou ela, que trabalhava numa loja do Pau da Lima. Somente quatro lojas permanecerão abertas: Brotas, Rodoviária, Imbuí e Manoel Dias. “Elas funcionarão até a duração dos estoques”, disse Patrícia Almeida, 35, ex-gerente, que fez carreira na empresa. “Uma vida  toda aqui. Comecei como caixa”, declarou.

Auxiliar de limpeza há cinco anos na loja de Campinas de Pirajá, Edinalto Fialho Cunha, 52, não sabe o que fazer. “Recebi a notícia por email para comparecer aqui, na matriz. Só disseram que fui demitido e mais nada. Com a idade que estou, dificilmente conseguirei um outro emprego de carteira assinada. Estou desnorteado”, declarou

Não foram só os funcionários das Farmácias Santana que sofreram com as demissões. Funcionários terceirizados também, como é o caso dos profissionais que trabalhavam como segurança das lojas. “A Santana recebeu um dinheiro da empresa que trabalhamos e não nos repassou. Quando fomos desligados, estávamos com dois meses de salários atrasados, e agora nem rescisão temos”, disse o vigilante desempregado Antônio Carlos de Jesus Santos, 48.

Apreensão
Na loja da Avenida Manoel Dias, uma das quatro farmácias da rede ainda restante, o clima é de apreensão. “Não sabemos o que pode acontecer. Estamos todos arrasados com tudo isso. Tem gente aqui que depende, e muito, do que recebe da farmácia”, disse a atendente Marcela de Almeida, 25.

Os poucos clientes da loja comentaram as demissões dos funcionários. “Infelizmente eles (funcionários) não têm nada a ver com tudo. Espero que, pelo menos, os empresários não deixem essas pessoas desamparadas, que paguem tudo que elas têm direito, pois esses pais e mães de família não têm culpa com o que fizeram com a rede”, declarou o industriário Jorge Luiz Aquino Silva, 56, quando chegava com a esposa à loja.

Na loja do Imbuí, um marasmo. Somente funcionários com o semblante nervoso. “Ficamos sabendo que vários colegas nossos foram demitidos e tudo indica que seremos os próximos. O que se fala é que lojas que ainda não fecharam, ficarão abertas até durar o estoque. Aqui, ainda tem muita coisa”, disse uma funcionária que preferiu não revelar o nome.

Enquanto ela conversava com a equipe do CORREIO, a aposentada Maria das Graças Souza Andrade, 64, entrou, fez um olhar panorâmico e disparou: “É muito triste ver tudo isso assim. Tinha dias que a gente pegava fila para pagar e hoje não tem ninguém a não ser eu de cliente. Tenho muita pena é dos funcionários”, disse ela, que comprou umas vitaminas e saiu.

Família Sant’Ana: preocupação com os trabalhadores 
Desde fevereiro de 2012, a família Sant’Ana, que deu vida à rede de farmácias por iniciativa de José Sant’Ana, não acompanha a crise no antigo patrimônio familiar. “Nossa única preocupação é saber se os funcionários serão pagos pela Brasil Pharma, única responsável pela gestão da farmácia”, falou um familiar do patriarca ao CORREIO. Dos 584 demitidos em janeiro, 568 foram pagos, mas 16 entraram com ação na 28ª Vara do Trabalho por não aceitaram o desconto de 30% no valor das multas rescisórias.

A preocupação é a mesma entre os representantes dos trabalhadores demitidos. Não houve nenhum aviso prévio às agremiações sobre as novas demissões, por isso, o clima é de cautela. Advogado do Sindicato dos Trabalhadores em Farmácia e Similares (Sintfarma), Carlos Henrique, falou à reportagem que, oficialmente, não há decretação de falência da Brasil Pharma. “Não sei dizer se os funcionários das lojas fechadas foram todos demitidos. Nós estamos aguardando da empresa um posicionamento. Não houve posicionamento formal ao sindicato”, diz. Em média, o sindicato calcula a demissão de 600 pessoas.

No sindicato que representa os farmacêuticos, a notícia também foi recebida com espanto. Representante jurídica do Sindicato dos Farmacêuticos, Eliane Simões falou à reportagem que, por ora, não há estimativa do número de demitidos. “Estamos preocupadíssimos com a situação. Acompanhando tudo para que nenhum farmacêutico tenha prejuízo. Esses novos demitidos foram uma grande surpresa para nós”, contou.

Crise

Os momentos finais da Farmácia Sant’Ana nas ruas da Bahia são consequência direta do processo de recuperação judicial ao qual a Brasil Pharma estava submetida desde janeiro de 2017, criada pelo banco BTG Pactual, em 2010. Em fevereiro, mostra relatório a que teve acesso o CORREIO, o número de demitidos representava 53% do total de desligados das 10 empresas controladas pela holding

No dia 29 de março, o relatório mensal apresentado à justiça paulista mostra que, dos 681 desligados, 360 trabalhavam na Sant’Ana. Até fevereiro de 2018, a Brasil Pharma possuía, em todo o Brasil, 278 lojas próprias. Delas, no entanto, somente 70 estavam em operação. As recuperadas apresentaram, nos autos da Recuperação Judicial, o pedido de alienação de 139 pontos de vendas que atualmente não se mostram úteis para o desenvolvimento das atividades. No final de janeiro, 46 das 114 lojas da Sant’Ana foram fechadas.

O balanço, em geral, foi “impactado negativamente pela perda de crédito junto aos fornecedores e pela queda substancial no abastecimento de estoques”. Ao todo, o resultado operacional do grupo foi negativo em R$ 62 milhões e os custos com verbas rescisórias chegou aos R$ 33, 2 milhões.

A história e os porquês
O Centro de Itaberaba foi o primeiro endereço da Farmácia Sant’Ana, em 1947. Seu dono, o pojuquense José Lemos de Sant’Ana, escolhera a então pacata cidade da Chapada Diamantina para trabalhar como médico. Entre um paciente e outro, surgiu a ideia de construir uma farmácia, a segunda do lugar, depois da Farmácia Saraiva. “O homem empreendedor que havia nele falou muito alto e ele decidiu arriscar”, resume Juraci Queiroz, 70, pesquisador da história da cidade.

Na década de 50, o médico empreendedor decidiu se mudar com a esposa, Lucia Laranjeiras, para Salvador, e vendeu a farmácia para João Cícero Magalhães. A história da Sant’Anna, no entanto, estava apenas no início. Instalado em Salvador, e disposto a continuar no ramo, José fundou a primeira farmácia que daria início à rede de drogarias, nas Mercês, hoje fechada. De venda em venda, o negócio se expandiu pela capital e retornou ao interior até se tornar a principal drogaria do estado. No auge, de 1990 a 2012, a Farmácia Sant’Anna chegou a ter 120 lojas distribuídas por 14 cidades baianas.

No período, de 1995 a 2017, a Farmácia Sant’Anna foi campeã em todas as edições que concorreu ao Top Of Mind, prêmio entregue a empresas destacadas nos seus ramos de atuação. Os troféus representavam o que os baianos sabiam: uma marca da terra ascendia em um segmento ainda pouco explorado. A hospitalidade e a atenção dos funcionários aos clientes passaram a ser associadas ao sucesso.

Mas, no dia 20 de dezembro de 2011, o incêndio na central de funcionamento da rede, localizada na Avenida Paralela destruiu, além de medicamentos, a própria Sant’Ana, avaliam pessoas próximas da família. Doutor José, como era chamado, já estava morto, e seu filho, conhecido como Zezinho, estava à frente do negócio. Sem nunca ter explicado se as chamas que reduziram a escombros o depósito foram o motivo, ele vendeu a rede à Brasil Pharma, pouco tempo depois, em fevereiro de 2012.

A gestão, o incêndio e a chegada de concorrentes, afirma o professor e diretor da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Horácio Nelson Hastenreiter, podem sim ter contribuído para o quadro atual da Sant’Ana.

“Certamente se exigiu um grau de investimento que a farmácia, depois, não conseguiu manter. As farmácias foram mudando de escopo, investindo em logística, no mercado de informação. E pode ser que a Sant’Ana não tenha acompanhado”, afirma Horácio.

Ao assumir a gestão da farmácia, a Brasil Pharma modernizou os sistemas de operação. Chegaram os computadores, a internet, a tecnologia. No entanto, dizem ex-colaboradores e empresários próximos, faltou o básico nos novos administradores: conhecimento no setor farmacêutico. A holding, criada em 2009, começou a investir no ramo em 2010 e comprou sete grandes grupos. Um deles, a Big Ben teve 64 lojas fechadas em Pernambuco, com 574 demitidos, no mesmo intervalo que a Sant’Anna.

Unidade das Mercês, a primeira que deu início à rede, coberta com tapumes (Foto: Mauro Akin Nassor/ARQUIVO CORREIO)

 

Fonte: Correio24horas

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