Foram dois meses à frente do time num dos momentos mais delicados do Bahia sob a batuta do agora ex-presidente Marcelo Sant’Ana. Preto Casagrande precisou de cinco jogos como técnico interino para ser aprovado pela mesma diretoria que o reprovou quatro partidas depois de o efetivar.

Campeão baiano em 2001 e do Nordeste em 2001 e 2002 como um jogador de destaque do Esquadrão, Preto acabou demitido de sua função fixa de auxiliar técnico do clube neste mês de dezembro. Segundo o Bahia, uma decisão em “comum acordo”. Segundo o ex-atleta, uma demissão sumária, feita por telefone.

Em entrevista ao jornal ‘A Tarde às vésperas do acerto com o técnico Guto Ferreira, confirmado na terça-feira, Preto dá asas à sua língua afiada. Coloca-se no mesmo nível dos quatro treinadores que passaram pelo Bahia enquanto ele esteve na comissão técnica – todos mais rodados, como o próprio Guto –, admite mágoa com Sant’Ana e lamenta não ter podido conversar nem “20 minutinhos” com o novo presidente, Guilherme Bellintani. Também admite dúvida sobre a continuidade de sua carreira como treinador.

O ano de 2017 foi intenso para você, com sua primeira experiência como técnico. Qual o balanço que você faz?

O ano foi ótimo. O time foi campeão da Copa do Nordeste, que era a principal meta, e fez uma boa campanha no Brasileiro. É claro que no aspecto pessoal, por ter assumido o time naquele momento, no meio da Série A, foi um pouco complicado. Mas encaro tudo como um aprendizado.

Na sua opinião, então, aquele não era o momento certo para ser alçado a técnico.

Justamente. O ideal não era aquilo. Quando um interino assume, é sinal de que as coisas não estão indo bem. Se eu tivesse iniciado uma temporada, teria sido diferente.

Você falou em aprendizado. Qual a principal lição tirada?

Por tudo que vivi e convivi nesse período, me sinto muito mais preparado hoje. Se eu ganhasse outra chance agora, teria um desempenho muito melhor. Mas a única coisa de que realmente me arrependo é de não ter arriscado mais. Fui muito conservador na parte tática, apesar de que a grande diferença entre eu e Carpegiani [técnico que o sucedeu] é que ele pôde contar com Allione e Edigar Junio. Eu não pude [eles estavam lesionados]. Por isso, tive que aguentar Rodrigão, mesmo mal fisicamente. Outro problema de lesão que tive também foi com Renê Júnior, pra mim o melhor jogador do Bahia na temporada.

Mesmo com essas ausências, você ainda assim considera que poderia ter sido mais ousado?

Sim. Eu poderia ter tentado um esquema mais ofensivo. Mas não tinha muita opção. No jogo contra o Atlético-PR, por exemplo, tive que botar [Gustavo] Ferrareis mesmo já sabendo que ele não ia render, não ia me ajudar. Só que eu olhava pra trás, para o banco de reservas, e não via nada melhor. Talvez se eu tivesse tido caras como Edigar e Allione tudo poderia ter sido diferente.

Você considera que estava preparado para o desafio?

Sim, estava. Dos quatro treinadores que passaram pelo Bahia enquanto eu estive lá, não me vejo inferior a nenhum. Mesmo a Carpegiani, que tinha métodos muito diferentes dos meus. Já Jorginho e Doriva, por serem ex-jogadores, tinham perfil mais parecido. Ouviam bastante. Guto [Ferreira], apesar de não ter jogado, também me ouvia. Já Carpegiani [também ex-jogador] é um cara mais fechado. Não ia muito até mim.

Em entrevista recente, o presidente Marcelo Sant’Ana disse que, na época de Jorginho, dois jogadores importantes (a reportagem apurou que foram Régis e Allione) pediram para sair do Bahia. E você contornou a situação. Procede?

Não sabia que eles tinham pedido pra ir embora, mas sabia que estavam insatisfeitos. Quem não está jogando sempre está insatisfeito. Criei uma relação muito boa com os dois. Quando fui afastado, Allione me mandou uma mensagem que me arrepiou. Ele é um cara diferente, muito maduro pra idade dele. Com Régis foi da mesma forma. Me dei muito bem com todos. Nunca houve indisciplina comigo.

No momento em que te tiraram do comando da equipe, como você reagiu?

Me senti injustiçado. Falei pra Marcelo [Sant’Ana], e Pedro [Henriques, então vice-presidente] também estava na hora: ‘você iniciou e está encerrando minha carreira como treinador’. Eu tinha convicção de que as coisas iam dar certo. Fiquei magoado, triste, acho que cederam à pressão. Mas também sou muito grato pela chance que me deram.

Mas você seguiu como auxiliar até o fim do ano…

Sou muito transparente. Se eu disser que fiquei ali normal, feliz, estaria mentindo. Eu tava ali magoado, chateado, mas assumi a responsabilidade, tive humildade pra dar sequência ao meu trabalho.

E a demissão já neste final de ano, como você recebeu?

Fui comunicado por telefone. Diego [Cerri, diretor de futebol] me ligou e falou que a decisão partiu de Vitor Ferraz [atual vice-presidente]. Fiquei magoado, acho que faltou respeito.

Você conhece Vitor Ferraz? Tinha algum problema com ele?

Ele era do jurídico, né? Fez meus contratos. Era uma relação profissional. Mas acho que ele não decide sozinho. Acredito que se Marcelo Sant’Ana tivesse continuado, eu teria ficado.

Na nota oficial, o Bahia afirmou que sua saída foi em “comum acordo”.

Não foi nada em comum acordo. Eu assinei um contrato de imagem de três meses depois que assumi como técnico e, em 2018, ia voltar a receber só o salário de auxiliar. Normal. Mas acabei demitido. O problema não seria dinheiro. O que ganhei nesses dois anos tem muito jogador que ganha em dois meses.

O convite para você entrar no Bahia como auxiliar, em 2016, partiu do ex-presidente Marcelo Sant’Ana? Qual plano ele colocou na mesa?

Foi Marcelo, sim. Depois de o acesso ter batido na trave em 2015, ele me chamou e disse: ‘Preto, preciso de alguém que faça ligação entre o técnico e os jogadores, pois em alguns momentos perdemos o vestiário’. Ele falou sobre a possibilidade de um dia eu me tornar técnico, e eu deixei claro que também pensava nisso. Mas eu não imaginava assumir naquele momento. Imaginava que seria no início do ano que vem. Se eu não tivesse assumido durante o Brasileiro, teria tido tempo pra fazer o curso da CBF. Só tenho a licença B, falta a licença A.

Vai completar em 2018?

Agora tô na dúvida. Tomei um banho de água gelada. Essa vida de técnico me afastou muito dos meus negócios [Preto é dono de postos de gasolina]. Atrapalhou pra caramba. Também me afastei da família. Estou há dois anos sem ver meu pai em Cascavel (PR) e minha mãe em Santa Catarina. Os fins de semana com meus filhos [ele é pai de um menino e uma menina] também deixei de ter. E eu era um pai muito presente.

Então, você não sabe se vai seguir como técnico.

Tô bem em dúvida. Já tive proposta de um time do Sul, da Série B. Mas não quero sair de Salvador agora. Penso em ficar pelo menos por mais dois anos. Já recusei essa proposta.

O que você pensa quando dizem que um dos maiores erros da gestão Marcelo Sant’Ana foi te colocar como técnico

Digo que essas pessoas não me conhecem no dia-a-dia. É fácil dizer isso, analisar por resultado, quando não conhecem meu trabalho.

Você que viveu o Bahia em diversas épocas, como vê a gestão atual do clube?

Eu queria só ter conhecido esse Guilherme Bellintani [novo presidente]. Falam tão bem dele, que é preparado, um visionário. Queria ter conversado só uns 20 minutinhos com ele. Me preparei pra isso. Mas acabei não tendo oportunidade.

E Marcelo Sant’Ana?

De uma coisa eu tenho certeza. Marcelo não queria ganhar nada através do Bahia. Ele queria o melhor para o clube. Acredito que fez uma boa gestão. Reconheço isso, apesar de estar magoado. Sobre essa nova gestão, não posso falar muito. Vou observar. Mas não acho que seja uma continuidade.

Como ficou sua relação com o torcedor após os acontecimentos deste ano?

Só aumentou a admiração que eles tinham por mim. A torcida foi quem mais me apoiou. Nunca ninguém me parou pra falar mal. Dizem que vai chegar meu momento, que vou ter outra chance. E é ao torcedor que devo satisfação.

Pensa em um dia voltar – outra vez – ao Bahia?

Não parei pra pensar ainda. Eu me imaginava técnico do Bahia, iniciando uma temporada. Mas agora levei um balde de água fria.

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